Ricardo Viveiros *
A comunicação é mais do que uma ciência, é pura arte. Embora haja um instrumental científico que a estude, explique, ensine, a comunicação é talento, percepção, movimento de emoções. Algumas pessoas têm o dom de comunicar, nasceram aptas para isso. Outras, por sua vez, tentam de todas as formas fazer de um simples “bom dia” uma saudação que cause reações, e não conseguem sequer uma resposta. Talvez, porque nem sejam ouvidas pelos seus semelhantes.
Como jornalista conheci, e até mesmo entrevistei, algumas pessoas — sem fazer juízo de seu valor moral — que mostravam ter o dom da comunicação: mímicos como Charles Chaplin, Jacques Tati e Marcel Marceau, por exemplo, nunca precisaram falar — seus olhos, seus sorrisos, seus mais contidos gestos sempre foram longos discursos. E por falar em longos discursos, Fidel Castro também consegue prender a atenção por horas, como também o faziam Carlos Lacerda e Jânio Quadros. Os escritores Cassiano Ricardo, Manuel Bandeira, Tiago de Melo, Ferreira Gullar, Cecília Meirelles sempre falaram alto com sua poesia cheia de força e ternura.
Da mesma forma que Chopin, Wagner, Strauss, também Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento comunicam pela música diferentes sentimentos. Os Beatles fizeram isso com absoluta qualidade e encantaram gerações. Picasso, Renoir, Van Gogh, Botero ou Tarsila, Portinari, Iberê, Aguilar fazem de traços, cores, formas sob luz um grito capaz de romper qualquer silencio. O fantástico cinema de Buñuel, Fellini, Visconti, Antonioni, Bergman, Kurosawa, Godard, Rosselini, Scola, Coppola, De Sica, Kubrick, Bertolucci, Pasolini, Almodóvar, Saura, Lucas, Spielberg, Disney — quantas emoções cada imagem transmite.
O teatro na interpretação de Fernanda Montenegro, Paulo Autran, Marília Pêra, Walmor Chagas, Cacilda Becker é algo que contagia, envolve a platéia numa identificação imediata com o que se passa no palco. O balé ao integrar a imagem, o som e o sentimento, por séculos vem comunicando e tornando inesquecíveis muitos nomes, como os de Margot Fonteyn, Rudolf Nureiev, Maurice Béjart, Eleonora Oliosi, Márcia Haydée, Ana Botafogo.
Estou falando disso, porque nestes dias tenho lembrado muito de um dos mais sensíveis e autênticos comunicadores brasileiros de todos os tempos: Carlito Maia. Ele foi publicitário brilhante, jornalista irreverente, responsável agitador e, acima de tudo, o melhor amigo de qualquer um. Uma das pessoas mais doces e fortes que conheci. Um apaixonado convicto, uma dessas personagens cidadãs e solidárias que pertencem ao grupo dos seres em extinção. E sempre bem humorado. Carlito era do tipo que não perdia a chance de falar a verdade, mesmo que doesse nele próprio.
Homem culto, amante dos prazeres da vida (entre os quais se incluíam as mulheres bonitas e inteligentes), Carlito criou frases que ficaram para sempre na vida de muitos brasileiros. Lenin falava do proletariado como “a jovem guarda a quem o futuro pertence”. Carlito não perdeu tempo: “Jovem Guarda” tornou-se o nome de uma época da música popular brasileira que, sob a liderança de Roberto Carlos, fez imenso sucesso. E foi o mesmo Carlito quem criou a frase: “É uma brasa, mora!”.
Carlito veio ao mundo a passeio, não em viagem de negócios — como dizia de si mesmo. Foi o único radical feliz que eu conheci na vida. Um ser transbordante de ternura e, ao mesmo tempo, repleto de coragem, capaz de derrubar montanhas para que elas não venham a Maomé — só para não deixar que o profeta fique acomodado. “Uma vida não é nada. Com coragem, pode ser muito”, disse para sempre.
Nestes tempos bicudos, em que se observa uma chance de retrocesso na política com denúncias de corrupção, imagino a dor que sentiria Carlito se ainda estivesse por aqui. Ele que tão sabiamente definiu: “A esquerda, quando começa a contar dinheiro, vira direita”. Com a autoridade de ter sido um dos mais significativos defensores do PT, manteve a sua liberdade e nunca ingressou em suas fileiras. Saudade do Carlito Maia e suas frases, suas flores, seus cartões escritos com canetas bicolores, sua comunicação criativa e emocionada, contagiante, fazendo-nos refletir e transformar.
É meu velho, como você mesmo disse: “Nós não precisamos de muita coisa. Só precisamos uns dos outros”.

* Ricardo Viveiros é jornalista, escritor e empresário do setor da Comunicação.

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